02/04/2004 - História da espeleologia

A espeleologia moderna no Brasil - século XX



Leda A. Zogbi - Meandros Espeleo Clube, Ericson C. Igual - GPME, Augusto Auler - Grupo Bambuí

1 - Surgimento da Moderna Espeleologia Brasileira

A primeira organização a iniciar um estudo sistemático e organizado das cavernas no Brasil foi a SEE, Sociedade Excursionista e Espeleológica, em 1937. Formada por alunos da Escola Federal de Minas e Metalurgia de Ouro Preto, a SEE foi a primeira instituição do gênero no Brasil e nas Américas, tendo precedido por alguns meses os cubanos.

Seus trabalhos se iniciaram nas regiões cársticas mais próximas de Ouro Preto: Matozinhos, Lagoa Santa, Cordisburgo e Pedro Leopoldo. O grupo também trabalhou em outras regiões do Brasil, como Bahia, Goiás, Ceará, norte de Minas e Vale do Ribeira, sul do Estado de São Paulo.

A força motriz por detrás da fundação da SEE foi o então aluno Victor Dequech. A SEE era um grupo extremamente avançado para sua época, se correspondendo com luminares da espeleologia francesa como Robert De Joly, utilizando técnicas inovadoras, como escadas de corda e realizando mapeamentos espeleológicos de ótimo nível. A SEE marcou época, atuando praticamente sozinha nesse campo por várias décadas. Em um de seus períodos mais ativos, nos anos 60 e 70, lançou a primeira revista espeleológica do país, denominada “Espeleologia”, e explorou e mapeou as maiores cavernas brasileiras da época, como a Lapa dos Brejões (6.400 m) na Bahia em 1967, que manteria o posto de maior caverna do Brasil por cerca de 12 anos.

2 - A Influência Francesa e o Surgimento da SBE.

Em 1959 chegou ao Brasil Michel Le Bret, engenheiro francês e espeleólogo apaixonado. Le Bret aderiu ao CAP - Clube Alpino Paulista, onde formou uma equipe de interessados pela espeleologia. Ficou sabendo que existia no sul do Estado de São Paulo uma vasta área de calcário, rica em cavernas e praticamente inexplorada, onde o naturalista Krone havia atuado meio século antes. Um pouco antes havia sido criado o PETAR, idealizado pelo engenheiro de minas José Epitácio Passos Guimarães. De posse dos relatórios de Krone, Le Bret iniciou as explorações, relocalizando e mapeando as cavernas. Entre as realizações mais marcantes estão o mapeamento da Gruta das Areias de Cima, Casa de Pedra e a travessia da Caverna do Diabo em fins de 1964, que já havia sido explorada em seu trecho inicial pelo grupo "Os Aranhas", um dos primeiros grupos de espeleologia brasileiros. Neste mesmo ano Le Bret organizou o primeiro Congresso Brasileiro de Espeleologia, sob o grande pórtico da Gruta Casa de Pedra.

Estimulados pelo sucesso de Le Bret, outros dois franceses se destacaram no cenário espeleológico paulista em fins dos anos 60, Pierre Martin e Guy Collet. Pierre Martin realizou diversos trabalhos de mapeamento, como na Caverna de Santana e mais tarde seria um dos principais incentivadores do moderno cadastro de cavernas do Brasil.

Depois do primeiro congresso na Gruta Casa de Pedra, a SEE organizou mais três congressos brasileiros de espeleologia em Ouro Preto. Esse movimento culminou em 1969, durante o 4o Congresso Brasileiro de Espeleologia em Ouro Preto, com a criação da SBE - Sociedade Brasileira de Espeleologia, visando congregar pessoas e grupos existentes e fomentar o desenvolvimento da espeleologia nacional.

3 -A Explosão de Novos Grupos Espeleológicos e as Grandes Explorações.

Os anos 70 e 80 se destacam pelo surgimento de vários grupos espeleológicos, como Centro Excursionista Universitário (CEU), Bagrus, Opiliões, Espeleogrupo de Rio Claro (EGRIC), Grupo Pierre Martin de Espeleologia (GPME) no Estado de São Paulo; Núcleo de Atividades Espeleológicas (NAE), Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas (GBPE), Guano em Minas Gerais; Espeleogrupo de Brasília (EGB) e Grupo Espeleológico da Geologia - UnB em Brasília; Grupo de Estudos Espeleológicos do Paraná (GEEP-Açungui) no Paraná; Grupo Espeleológico Paraense (GEP), Grupo de Explorações Espeleológicas do Ceará (GEECE), Centro de Espeleologia do Rio Grande do Norte, além de inúmeros outros.

Os anos 70 ficaram marcados pelo início de uma profunda transformação no cenário das grandes cavernas do Brasil, com memoráveis descobertas e explorações em regiões antes pouco conhecidas, principalmente nos Estados de Goiás e Bahia. As fantásticas cavernas da região de São Domingos foram alvo de várias incursões. A primeira expedição (e a única a conseguir mapear uma das grandes cavernas em sua totalidade) foi realizada pela SEE em 1970. Foram explorados e mapeados cerca de 4.800 m da Lapa de Terra Ronca. Posteriormente as outras grandes cavernas da área foram “adotadas” por grupos de São Paulo, como Opiliões, Bagrus e o CEU. O mapeamento da Lapa de São Mateus III pelo CEU em 1979 representou, na época, a maior caverna brasileira, com pouco mais de 10 km de galerias. Algumas das grandes cavernas de São Domingos, como São Vicente e Bezerra, só viriam a ter sua exploração e mapeamento concluídos cerca de 20 anos depois.

A partir dos anos 80 as grandes descobertas foram efetuadas no Estado da Bahia. Em 1986 foi explorada, pelo Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas, a Gruta do Padre que, no ano seguinte, em um mapeamento em conjunto com o Espeleogrupo de Monte Sião e Espeleo Clube de Avaré, atingiria 16.200 m de extensão, a maior caverna brasileira. Em 1987 se iniciou, também pelo Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas, o mapeamento da Toca da Boa Vista que, após mais de 20 expedições, atingiu, em janeiro de 2004, 105 km de galerias topografadas. Trata-se da maior caverna do Hemisfério Sul e uma das mais extensas e complexas grutas do mundo. Sua vizinha, a Toca da Barriguda, ultrapassa os 30 km de galerias, a segunda maior caverna brasileira conhecida. Outras áreas que revelaram importantes descobertas foram a Chapada Diamantina e a Serra do Ramalho, ambas na Bahia.

Descobertas continuaram a ocorrer durante os anos 90. Em especial, a evolução de áreas como espeleomergulho e espeleoresgate foram marcantes, ambas contando com a contribuição importante de grupos espeleológicos estrangeiros. Vale destacar a exploração sistemática de cavernas alagadas, principalmente na região de Bonito (MS). Atualmente alguns dos mergulhos mais profundos e longos de todo o mundo estão sendo realizados no Brasil. A descoberta das profundas cavidades quartzíticas no topo do Pico do Inficionado (MG) representou um novo marco para a espeleologia vertical brasileira, com a exploração das três cavernas mais profundas do país, incluindo a mais longa e mais profunda caverna em quartzito do mundo, a Gruta do Centenário com -481 m de profundidade e 3800 m de extensão.

4 - O Estabelecimento de uma Ciência Espeleológica Brasileira e a Proteção ao Patrimônio Espeleológico

A partir de fins dos anos 70 iniciou-se um lento processo de capacitação acadêmica de pesquisadores interessados no estudo científico de nossas cavernas. Teses de mestrado e doutorado versando sobre espeleologia foram defendidas em número sempre crescente, culminando com a formação de grupos de pesquisa. O núcleo de tal transformação pode ser situado nos Institutos de Biociências e Geociências da Universidade de São Paulo, que hoje contabilizam dezenas de trabalhos científicos publicados em revistas de renome internacional, além de vários mestrados e doutorados. Outros núcleos de pesquisa estão lentamente se estabelecendo em universidades como a UFMG e UnB. A ciência espeleológica brasileira hoje, apesar de pequena, possui nível internacional e os cientistas espeleólogos exercem influência cada vez mais marcante nos destinos do patrimônio espeleológico brasileiro.

A proteção ao patrimônio espeleológico foi outra área de suma importância que vivenciou notáveis avanços a partir dos anos 80. Espeleólogos se envolveram ativamente na discussão de uma nova legislação que contemplasse a preservação das cavernas e seu entorno, tanto a nível nacional quanto estadual. Diversas unidades de conservação foram criadas, protegendo sítios espeleológicos e deu-se início a elaboração de planos de manejo para cavernas e áreas cársticas. Estes esforços culminaram com a fundação, em 1997, do CECAV - Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas, unidade do IBAMA encarregada de fiscalizar e fomentar atividades ligadas às cavernas.

5 - Cenário Atual


A espeleologia brasileira chega ao século 21 com um grande potencial de crescimento, apesar de sérios problemas estruturais, muitos deles recorrentes há vários anos. Hoje nossa espeleologia, tanto em âmbito esportivo quanto técnico-científico, situa-se no mesmo nível de países mais desenvolvidos, muito embora seja praticada em uma escala menor. O número de praticantes ativos encontra-se estabilizado há muito tempo, representando provavelmente não mais do que algumas centenas de indivíduos. Os grupos espeleológicos, tão atuantes nas décadas de 70 e 80 hoje estão enfraquecidos, com um número relativamente pequeno explorando novas áreas.

Por outro lado, nunca a espeleologia e as cavernas estiveram tão populares, levando dezenas de milhares de turistas mensalmente a visitar cavernas em todo o território nacional e sendo corriqueiramente veiculada em televisão e na imprensa escrita.

A Sociedade Brasileira de Espeleologia, que supostamente deveria ser o núcleo integrador dos interessados em cavernas no Brasil, infelizmente não cumpriu o seu papel. Com uma estrutura e estatutos obsoletos, e controlada por grupos personalistas com pouca experiência e afinidade com atividades de campo, afastou-se gradualmente dos problemas do dia-a-dia de nossa espeleologia. Isto ocasionou, ao longo dos anos, o desligamento de importante parcela da espeleologia brasileira, incluindo quase toda a comunidade científica. Após uma série de crises nos anos 80 e 90, finalmente em 2003 resolveu-se buscar uma alternativa definitiva, com a fundação da Redespeleo Brasil, uma nova organização, mais horizontalizada e atuante, que possa efetivamente representar os interesses dos praticantes da espeleologia brasileira. A Redespeleo Brasil já conta com a participação de muitos dos mais atuantes grupos e indivíduos do país e tem crescido rapidamente, ocupando um espaço há muito em aberto em nossa espeleologia.

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